LITERA MUNDI

EDUFRO, PORTO VELHO, 2002

178 PÁGINAS

 

            Este livro reúne minhas principais preocupações literárias desde o final da década de 80 do século XX, mesmo tendo sido escrito somente neste início de milênio, quando se inicia a publicação dos meus livros estritamente literários. A década de 80 para mim foi uma década fundamental. Nela descobri que havia outra literatura bem além daquela que havia me acostumado e considerado como literatura. Literatura que não era somente “contar uma história” ou dizer um país, uma região, uma ideologia, mas sondagem profunda na existência, multiplicador do nosso diálogo interior, das nossas experiências, das nossas relações e percepções, ampliando a vida, os sonhos, os desejos, a esperança, o corpo e, por que não, a morte. Para isso era preciso uma visão de mundo diferenciada, uma experiência vital singular, uma atividade que me fizesse escapar das principais e tradicionais armadilhas mesmo que fosse para cair em outras, mas ainda assim como uma visão pessoal. Por isso precisei abandonar as primeiras e principais visões de mundo que arregimentara durante muito tempo, como o marxismo, um dos principais empecilhos a construção de qualquer arte, e certo realismo, abismo da aparência.

            A esta visão de mundo denominei Hermenêutica do Presente. É perspectiva que reúne, sem ambição de originalidade, de rigor ou de academicismo, um círculo de filosofias, de teorias, de vivências amalgamadas numa colcha de retalhos que me serve como óculos, como muletas, como suporte de onde posso falar, mas, ao mesmo tempo, é inflexão que nasce da minha longa escritura, que me serve pessoalmente para entender aquilo que se plasma como literatura, que vem de mim mas ainda não sei. Não é filosofia que ad-vém de uma reflexão autônoma e primeira, um fazer-filosofia, mas sim da escritura literária. A Hermenêutica do Presente é a conseqüência da minha literatura e não o contrário. Aquilo que nasce sem que tenha pleno domínio exige, talvez por curiosidade, talvez como estímulo à sala de aula, complemento e um desenvolvimento além do estritamente literário. Exatamente por isso não é essa “teoria” que poderia fazer compreensível a literatura, mas, num duplo mortal, é a literatura que deve fazer inteligível esta “teoria”.

            É sempre insuficiente, incompleto e lógico demais o que se diz sobre literatura. Todas as coisas podem ser vistas por mil perspectivas diferentes e sempre se apresentarão antagônicas às outras posições. Mas a literatura tem a qualidade de multiplicar o múltiplo e reduzir a unidade: estamos sempre e sempre estaremos num pântano. Escrever sobre literatura é tarefa frustrada desde o nascedouro. Como não é algo, não é objeto, discurso, dimensão da apreensibilidade, aquilo que se pode dizer, mas devires sem base, sem meio e sem finalidade, todo dizer-sobre resvalará para o impróprio: poderá somente ser dito, sem almejar nada mais que isso: jamais ciência, disciplina, método, verdade, realidade, satisfação, unanimidade: essas alegrias ficam para os que se satisfazem com uma dimensão em baixa freqüência da escrita: tão somente momento da fala. A literatura é o que se dá somente para si mesma nos devires de certa linguagem.

            Mas essa baixa freqüência da escrita existe e se diz literatura. Torna-se então objeto de ciência, de análises: é o que dá consistência à atuação dos especialistas das letras, assim como aquilo que dá consistência aos historiadores é sua ilusão fundamental sobre o passado como algo que existiu ou existe fora das escrituras historiográficas. Nossa pretensão não é esgotar nada, não é dizer definitivamente nada, não é alargar nada. Aqui é somente o espaço de um dizer conjunto.

            Aqui se reúnem textos diversos (ainda e sempre incompletos, não terminados). Um deles é a “súmula teórica” do que foi escrito em 1999 (do profundo ao raso) na guerrilha que foi o lançamento do Movimento madeirista; outro foi escrito, reescrito, publicado e republicado, sempre mudando, crescendo e diminuindo buscando não se sabe o que; outro, escrito como abertura para um livro eletrônico; uma palestra sobre os cem anos da morte de Nietzsche; e fragmentos escritos em todas as circunstâncias para satisfazer obsessões, repetições, paixões, incompreensões e iluminações (quase todos publicados no periódico “Primeira Versão”). No todo radiografam não somente alguns anos de preocupação literária, mas uma vida e seus inescapáveis nódulos, enganos e labirintos.