NAS ÁGUAS DO TEXTO: PALAVRA, EXPERIÊNCIA E LEITURA EM HISTÓRIA ORAL

EDUFRO, PORTO VELHO, 2001

168 PÁGINAS

 

         Este texto vem depois de Interpretação e Realidade (1997b), Seis Ensaios de História Oral (1998a) e Oralidade, Texto e História (1999): é momento de reflexão sobre o diálogo empreendido nesses três textos anteriores, tendo feito parte deste último e se desdobrado somente por necessidades editoriais. Esse diálogo é ainda travado entre certa História Oral (Viezzer, 1984; Burgos, 1987; Patai, 1989), a obra do professor José Carlos Sebe Bom Meihy (1990, 1991, 1993, 1996a, 1996b, 1997, 1998) em particular com aquilo que denominei Hermenêutica do Presente (1996, 1997b, 1998a, 1999), meu horizonte teórico em construção.

         Este é mais um momento deste diálogo. Carrega ainda com ele uma situação híbrida, certo amálgama textual. Ainda não se desligou textualmente desses momentos anteriores, buscando neles palavras, idéias, imagens, parágrafos refundidos, um repetir para melhorar ou dizer mais e melhor; são capítulos em busca de um território em construção, neste caso, em busca de uma poética da interpretação (ainda uma interpretação híbrida, amorfa, entre mundos, entre o olfato e o tato), em busca de um fazer hermenêutico que nos ajude a superar inicialmente alguns impasses teóricos advindos do próprio diálogo e da busca da superação do simples diálogo.

         O texto onde desenvolveremos nossa leitura, escolha aleatória porque poderia ser qualquer uma com suas condições (não foi uma estrutura que nos previra ou que precisasse de nós para existir), faz parte da dissertação de Josué da Costa Silva (1994), onde consta como transcrição de uma entrevista feita em Cuniã-RO em 1993. A esse texto demos um tratamento transcriativo (Meihy, 1990, 1991, 1996a; Caldas, 1998a), tirando-o da sua utilização documental ou meramente expositiva, estando num contexto como uma coisa, deixada lá como uma evidência. Nossa meta é colocar essa coisa em movimento (para descoisificá-la?).

         Escolhemos uma entrevista não feita por nós, primeiro, para vermos até onde nossa idéia geral sobre leitura e interpretação poderia ser aplicado a outros textos que não o nosso, não sendo deformado por uma proximidade despreparada; segundo, porque quisemos testar até onde vai o poder de textualização sem colaborador, já que a entrevista não passou por um diálogo colaborativo, sendo produzida em moldes tradicionais, abrindo, assim, para uma posterior avaliação metodológica do nosso fazer; terceiro, pela dimensão inicial de documento, de ser-aí científico, o que nos fez empreender todo um processo transcriativo sobre algo já definido: para des-definir, para des-locar, para fazer re-fluir.

         Para tanto não escolhemos um conjunto documental mas um texto, provisoriamente, solitário. E as razões são simples. Por um lado, como ainda não possuíamos os elementos necessários para uma melhor compreensão das estruturas textuais, como iríamos utiliza-las? Talvez as inutilizássemos. Daí um texto apenas, aquele que conseguisse nos atrair, seduzir, nos levar ao mais da interpretação, que conseguisse não somente mais interpretação, mas uma teoria da interpretação (mas não uma grade fixa a ser aplicada universalmente, mas flexibilização teórica diante das falas do outro, das palavras do outro, das palavras sem outro: liberdade como conquista, não igualdade), e que não se esgotasse simplesmente numa cartada apenas. Por outro lado, precisávamos de um texto para condensar todos os nossos esforços. Para poder extrair dele o máximo possível, apesar de corrermos vários riscos, inclusive de nos perdermos numa unidade e perdermos a validade desse raciocínio para um conjunto maior, se bem que não pensamos extrapolar a singularidade para servir de normas, de modelo, de exemplum para o restante das nossas entrevistas, como deixou bem claro Roland Barthes (1992: 46):

 

... o texto único não é acesso (indutivo) a um modelo, mas entrada de uma rede de mil entradas; penetrar por essa entrada é visar, ao longe, não uma estrutura legal de normas e desvios, uma Lei narrativa ou poética, mas uma perspectiva (de fragmentos, de vozes vindas de outros textos, de outros códigos), cujo ponto de fuga é sempre transladado, misteriosamente aberto: cada texto (único) é a própria teoria (e não o simples exemplo) dessa fuga, dessa diferença que, sem se conformar, volta indefinidamente.

 

         O principal não é a reflexão teórica mas a liberdade de uma imaginação criativa sobre um texto, sobre uma vida, sobre e dentro de um texto vivo que, em “condições normais”, seria somente descrito, comentado ou simplesmente apresentado, desaparecendo diante do olhar positivista ou encoberto pela “sociedade”, pelo “contexto social”, pelo “processo histórico”, imagens, normalmente, camufladoras de insuficiências e ideologias, enroscadas em representações.

         Ao mesmo tempo potencializamos nosso método para um além daqueles textos produzidos por um pesquisador isolado, abrindo sua atuação não somente para as entrevistas feitas pelos oralistas, mas por outros e, principalmente uma maior flexibilidade diante dos textos do mundo, inclusive os chamados documentos escritos (a entrevista aqui foi vista no princípio como um documento escrito), que podem, muito bem, e sem danos (sempre a preocupação positivista), serem transformados em textos depois de um processo de textualização transcriativa. Abrimos aqui para um universo mais amplo que o simplesmente limitado tanto pela entrevista quanto por um com-tato entre pesquisador e colaborador, sem, contudo abandonar essa dimensão, fundamental ao nosso ver.